EDITORIAL DO JORNAL O GLOBO - Criminalidade e política convivem no Rio de Janeiro

Ex-policiais bandidos são parte de longa história que passa pela leniência e pela falta de ética
O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, de repercussão mundial, faz emergir um cenário de tragédia social e política, com ingredientes já conhecidos: ex-policiais, alguns adestrados em tropas de elite constituídas para melhor defender a sociedade, que lhes paga o soldo, se misturam a quadrilhas organizadas e eles mesmos passam a agir como sicários de aluguel. E no pano de fundo transcorre outro tipo de desagregação moral, a da representação política, já infiltrada por representantes deste mundo outrora obscuro, hoje bem claro. Não são enfermidades separadas.
Em tempos folclóricos, policiais achacavam motoristas relapsos. Os mais graduados em delinquências passaram a proteger banqueiros de bicho, a trabalhar na segurança pessoal deles e de seus pontos, modernizados pela jogatina eletrônica. Já houve esquadrão da morte, para “limpar a sociedade”. Mas hoje matar é negócio para mão de obra adestrada pelo Estado, com impostos da população.
Há tempos aponta-se para a “banda podre da polícia”, sem que governantes decidam enfrentá-la como é preciso. Alegam que uma legislação permissiva impede punições à altura dos crimes dos policiais bandidos. Mas a falta de empenho é visível. A esperança da vez está na legislação anticrime organizado proposta pelo ministro Sergio Moro ao Congresso.
Mas o problema do Rio parece ser mais profundo. Os diversos ciclos de políticos populistas no poder (de Brizola aos Garotinho, passando por Benedita) em nada ajudaram no combate real ao crime, muito menos para conter a degradação urbana do Rio e de seu entorno. Ao contrário.
A partir da década de 80 do século passado, áreas começaram a ser convertidas em santuários de quadrilhas (traficantes, etc), e, nos últimos anos, ocupadas por uma outra séria ameaça ao estado democrático de direito, o miliciano. Bisneto do policial do achaque a motoristas, o miliciano, agora convertido em grileiro urbano, “empresário” imobiliário, tem ramificações nos diversos tráficos, inclusive no de armas, como indica a apreensão de 117 fuzis do ex-PM Ronnie Lessa, acusado de ser quem puxou o gatilho contra Marielle e Anderson, da janela de um carro dirigido por Élcio Vieira de Queiroz, também egresso da polícia.
No outro lado da cena, parte do que seria a elite política do estado está presa. O ex-governador Sérgio Cabral e a cúpula da Alerj (Picciani, em casa, e Paulo Melo e Albertassi, na cadeia). Operaram um esquema provavelmente bilionário de corrupção. Não iriam mesmo se preocupar seriamente com a degradação das instituições policiais e outras. Até contribuíram para isso.
Não há solução instantânea, por homens fortes e providenciais. A via principal é a conscientização de cariocas e fluminenses de que a saída é política, para encerrar o longo ciclo de decadência do estado. Sem prejuízo de ações específicas, com apoio da União para conter e reverter esta debacle, que na verdade ameaça todos os brasileiros. Serpentes já deixaram os ovos.

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