'Quero visibilidade às referências negras': Aluna da Ufba representa Brasil em fóruns no exterior

por Renata Farias
Fotos: Arquivo pessoal
Dar visibilidade a referências negras e ampliar os debates sobre racismo e machismo nas escolas são desejos da estudante Aniele Berenguer, de 22 anos. Recentemente, ela passou a sentir que isso estava mais próximo de se tornar realidade, após ser selecionada para representar o Brasil em dois importantes eventos internacionais: o Brazil Conference at Harvard & MIT, nos Estados Unidos, e o Girls 20 Summit, no Japão.
Nas duas seleções, a aluna do quinto semestre de Psicologia na Universidade Federal da Bahia (Ufba) acredita que o destaque está relacionado à sua trajetória de vida e seu envolvimento com iniciativas sociais. “Uma coisa que eu só me dei conta agora é a potência da minha história, de contar minha história”, afirmou em entrevista ao Bahia Notícias.
“A minha mãe é professora de educação infantil e meu pai é garçom. Minha mãe entrou na faculdade com 40 anos. Minha avó é lavadeira e meu avô, mestre de obras. Eu conto minha trajetória familiar porque acho importante mostrar que entrar na universidade não é algo constante na minha família”, acrescentou Aniele.
A jovem começou a sentir as relações raciais ainda na infância. Graças a uma bolsa, ela estudou em colégio particular e era uma das poucas alunas negras. “Eu podia contar na mão quantas [pessoas negras] tinha. Na época, era um incômodo, mas eu não sabia dar nome”, contou. “Foi uma vivência muito importante academicamente, mas muito solitária socialmente”.
Quando começou a cursar Psicologia na Ufba, Aniele percebeu que a universidade poderia oferecer muito mais. Ainda no primeiro semestre, foi selecionada para integrar o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Raça, Gênero e Saúde (Negras). Com o grupo, a estudante participa de ações para dar visibilidade às demandas e conhecimentos relativos à população negra, incluindo a realização de palestras em escolas.
“No Negras a gente recebe alguns convites pontuais para dar palestras em escolas. Quando acontece, é um espaço muito rico de crescimento e de troca. São estudantes majoritariamente negros, de escolas públicas, em ambientes periféricos. Eu senti muita falta, durante a minha vivência, de referências negras”.
Aniele durante IV Colóquio de Saúde da População Negra, organizado pelo Negras
AS CONFERÊNCIAS
A partir do contato com o Negras, a jovem se inspirou para o projeto apresentado na inscrição do Girls 20 Summit, que acontece em maio. “Eu queria um projeto que pudesse trazer mais referências negras para as escolas públicas, além de um diálogo sobre racismo e machismo”, contou. Quando retornar, ela acredita que terá embasamento e apoio para colocar a ideia em prática.
Para Aniele, o projeto é essencial também pelo potencial de aproximar a universidade das escolas. “Uma das membras do nosso grupo é professora em uma escola e ela falou que os alunos dela se questionavam se poderiam entrar na universidade pública, porque achavam que era pago. Foi um choque perceber a distância que a gente tem entre a universidade e as escolas”.
Realizado este ano no Japão, o evento chega à sua 10ª edição com o objetivo de debater questões de gênero e as condições de vida das mulheres no mundo atual. Foi selecionada uma representante de cada país membro do G20, e suas ideias serão repassadas aos chefes de Estado.
Já nos EUA, Aniele integrará um grupo de estudantes brasileiros, dois de cada região, representando o Nordeste. A Brazil Conference at Harvard & MIT acontece em abril e reunirá a comunidade brasileira para debates com lideranças do país. Em seu retorno, a estudante deverá organizar uma conferência para replicar os conhecimentos adquiridos.
RESPONSABILIDADE
A expectativa da jovem é retornar ao Brasil com bons frutos, como “uma rede de contato, apoio e suporte para fazer ainda mais”. Aniele vê essa “oportunidade incrível” também como uma “grande responsabilidade”. “Acho que é uma coisa que reverbera para todas as pessoas ao meu redor, por não termos muito isso”, avaliou.
“O que eu quero é poder dar visibilidade às inúmeras referências negras que a gente já tem. A gente tem muitas mulheres negras que estão fazendo grandes coisas, mas a gente não tem tanto acesso. Eu só conheci na universidade. Tem Carolina Maria de Jesus, que escreveu 'Quarto de Despejo', Djamila Ribeiro, Carla Akotirene e muita gente que está escrevendo sobre nossas existências enquanto homens e mulheres negras, sobre nossas comunidades, mas a gente não tem acesso”, concluiu. (BN)

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