A paralisia do Brexit

Parlamento britânico rejeita pela terceira vez o acordo de saída do país da União Europeia e a primeira-ministra Theresa May decide recorrer à oposição
IMPASSE Apesar da persistência, Theresa May não consegue resultados práticos e sofre uma sucessão de reveses políticos (Crédito: ISABEL INFANTES)
Luisa Purchio
REJEIÇÃO Legislativo não quer o acordo proposto
 por May: mistura de má vontade com
desalinhamento político
(Crédito:AFP PHOTO / MARK DUFFY)

São dois anos e mais de 500 horas de reuniões. O Brexit, aprovado por um apertado plebiscito em 2016, vem sendo conduzido como uma maratona, mas são poucas as vitórias ao longo da extenuante jornada. Na sexta-feira 29, mais uma derrota para a lista da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May. O Parlamento britânico rejeitou pela terceira vez – agora por uma margem menor, é verdade, de 58 votos – o acordo que a premiê negociou com a Comissão Europeia e que propõe uma saída branda do Reino Unido do bloco, sem um total rompimento de suas relações comerciais. Seja por má vontade ou simplesmente desalinhamento político, o fato é que o legislativo não quer o acordo proposto por May, mas também não aceita qualquer outra proposta.
O clima nas ruas de Londres refletiu bem o impasse sobre o tema. A cidade foi palco de manifestações de ingleses movidos por causas totalmente opostas: contra e pró-Brexit. Foi na segunda-feira 1, no entanto, que um protesto inusitado interrompeu uma comissão no Parlamento sobre o tema. Doze ativistas de defesa do meio ambiente tiraram a roupa e cantaram até serem presos pela Scotland Yard. Apesar dos risos dos parlamentares causados pela intervenção, não foi nem um pouco engraçada a conclusão do plenário. Nenhuma das quatro alternativas de acordo ao Brexit foi aprovada pelo legislativo. Detalhe: na semana anterior, nove planos “B” já haviam sido rejeitados.
Nesse emaranhado político, o maior terror da premiê May é o relógio. O dia D do Brexit, 13 de abril, está cada vez mais perto e ela faz de tudo para conseguir o acordo ou pelo menos mais tempo para alcançá-lo. Até o próprio cargo já foi oferecido como moeda de troca em uma reunião com parlamentares conservadores, após a derrota das propostas alternativas. Em vão. A persistência de May pode até ser admirável, mas tem pouco efeito prático. Cada vez menor politicamente, ela não conta com sustentação dentro de seu próprio partido, principalmente dos defensores do hard Brexit, que defendem um corte mais profundo com a União Europeia.
O clima nas ruas de Londres refletiu bem o impasse sobre o tema. A cidade foi palco de manifestações pró e contra o Brexit
Diálogo com os inimigos
Sem apoio amigo, ela finalmente atendeu ao conselho que recebia há meses e resolveu dialogar com os inimigos. Na quarta-feira 3, se reuniu com Jeremy Corbyn, líder da oposição e do Partido Trabalhista. Apesar de saudada por Corbyn, a aproximação do líder considerado marxista pelos eurocéticos foi muito mal vista pelo partido Conservador e provocou deserções. O subsecretário de Estado do País de Gales renunciou, assim como o subsecretário de Estado para o Brexit, quem prepararia o divórcio caso ele ocorresse sem acordo. Ou seja, um fracasso total. Além de mais perda de apoio político, a reunião de May com a oposição foi inconclusiva e não trouxe nenhuma garantia de avanço a um consenso. Winston Churchill, premiê britânico que se consagrou pela atuação como primeiro-ministro do Reino Unido durante os tempos sombrios do domínio de Hitler, na Segunda Guerra Mundial, dizia que “o sucesso consiste em ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”. Entusiasmo não falta a Theresa May. Agora falta o sucesso. (ISTOÉ)

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