ADVOGADO DO DIABO' : Braskem escala defensor da Vale em Brumadinho, contra bloqueio milionário em Maceió

Ele defende a Vale, que matou quase 300, como a Braskem, que ameaça 30.000
Advogado Sérgio Bermudes. Foto: Carlos Cecconello/Folhapress
O advogado Sérgio Bermudes, que defende a mineradora Vale, causadora da tragédia da barragem de Brumadinho (MG) que matou cerca de 300 pessoas, como se fora um “advogado do diabo”, expressão que designa o defensor do indefensável, aceitou também defender os interesses da Braskem, apontada como causadora de um fenômeno que pode provocar uma tragédia ainda maior: o afundamento de três bairros de Maceió, onde vivem mais de 30 mil pessoas. O afundamento é provocado pela extração de sal-gema do subsolo em uma região com falha geológica, segundo acreditam especialistas e suspeita a Justiça.
Bermudes bem que tentou, ajuizando recurso ontem (8) para tentar reverter o bloqueio judicial de R$100 milhões determinado na semana passada pela Justiça de Alagoas, que levou em conta os interesses das vítimas da Braskem. O bloqueio foi concedido no âmbito de um pedido do Ministério Público Estadual pela indisponibilidade de R$ 6,7 bilhões, ao extrair sal-gema do subsolo de uma região com falha geológica.
O agravo de instrumento impetrado por Bermudes tramita na 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), e foi negado hoje (9) pelo desembargador Alcides Gusmão da Silva, relator da matéria.
A medida cautelar do juiz Pedro Ivens Simões de França, da 2ª Vara Cível da Capital, visa garantir o socorro e reparação de danos às vítimas dos problemas no Pinheiro, um dos três bairros em situação de calamidade por causa do afundamento do solo identificado por estudos preliminares do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), na região em que a gigante do setor químico-plástico atua.
A iniciativa da subsidiária da Odebrecht aconteceu no mesmo dia em que a Braskem intensificou a divulgação de sua proposta de “ser parte da solução” do problema, em mensagem veiculada nas emissoras de televisão locais e demais órgãos de imprensa, na qual admite arcar com suas responsabilidades, caso seja provada sua culpa.
Desde ontem, a Braskem divulga amplamente em Alagoas as medidas estruturais a serem implantadas pela empresa no bairro do Pinheiro; ações estas previstas no instrumento de cooperação técnica celebrado com os Ministérios Públicos Federal, do Trabalho e do Estado de Alagoas, a Prefeitura de Maceió, a exploradora de sal-gema e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (Crea-AL) firmado na semana passada.
Sérgio Bermudes já defende há alguns anos a Odebrecht, da qual a Braskem é subsidiária. Ele atuou na defesa da mineradora Vale, após a Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, se romper em Brumadinho, em 25 de janeiro, matar 121 e deixar 226 desaparecidos e um rastro de destruição material, ambiental e emocional.
Concentração de minas da Braskem sobre falha geológica em Maceió. Foto: Reprodução Abel Galindo/TV Gazeta
‘Um no cravo, outro na ferradura’
O jornalista e escritor Joaldo Cavalcante vive com sua família desde a infância, no bairro do Pinheiro, onde reside em imóvel fora da áreas de maior risco. E criticou publicamente a postura da Braskem diante da tragédia, ao “inaugurar uma postura proativa”, com campanha midiática em que diz cooperar com ações emergenciais no bairro; enquanto entra com agravo na Justiça para evitar o bloqueio dos R$ 100 milhões, dos R$ 6,7 bilhões pedidos pelo MP, para cobrir danos materiais e morais causados a tantas vidas, caso se confirme em laudo técnico oficial a responsabilidade da empresa.
“Ela hoje opera a mineração do sal-gema no subsolo da região afetada e de seu entorno – fato que se arrasta há quase meio século, desde a pioneira Salgema Indústrias Químicas S/A. Para defender seus interesses, a Braskem joga pesado: contratou o advogado Sérgio Bermudes, o mesmo que defende a Vale no triste episódio de Brumadinho. Parece-me que estamos diante daquele velho dito popular: ‘é uma no cravo e outra na ferradura'”, publicou o morador do Pinheiro, em suas redes sociais.
O Diário do Poder perguntou à Braskem se iniciativa não contraria a promessa de fazer parte da solução do problema, como entenderam alguns moradores do bairro; qual o argumento utilizado pela Braskem no recurso contra o bloqueio judicial; e se a mineradora poderia enviar a cópia do agravo de instrumento.
Veja a resposta da Braskem:
A Braskem informa que ingressou com recurso contra o bloqueio judicial por entender que não há qualquer estudo conclusivo que evidencie a responsabilidade da empresa pelos eventos registrados no Bairro do Pinheiro, não sendo razoável uma decisão sem um laudo final. Além disso, a Braskem é uma empresa solvente e cumpridora de suas obrigações, não havendo motivos para um bloqueio compulsório de seu caixa, o que afeta negativamente suas operações em Alagoas.
O recurso não afeta em nada o compromisso da empresa em fazer parte das soluções, o que já está acontecendo com a tomada de ações emergenciais no Bairro, previstas no Acordo de Cooperação Técnica celebrado com o Município de Maceió, Ministério Público Federal (MPF-AL), Ministério Público Estadual (MPE-AL), Ministério Público do Trabalho (MPT-AL) e Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (CREA-AL).
A Braskem seguirá colaborando com as autoridades para a identificação das causas das ocorrências do bairro do Pinheiro e, como já afirmou, caso fique comprovado que as suas atividades deram causa aos eventos no bairro, assumirá sua responsabilidade com a sociedade alagoana, como tem feito ao longo de mais de 40 anos de atuação no Estado. (DP)

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