'Além das 38 facadas, dilacerou a família', diz mãe de universitária morta pelo namorado

Desde assassinato em 2007, mãe e irmão de Milene Bittencourt lidam com depressão
Mãe de Milene, Gal se disse aliviada por ver prisão do assassino da filha(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)
O tempo não adormeceu a dor. Pelo contrário. Foram 12 anos de sofrimento, noites sem dormir e um desejo muito forte de ver a prisão do assassino da filha. Esse dia chegou para a dona de casa Maria das Graças Bittencourt, 54 anos.
“Foram 12 anos aguardando ansiosamente por este momento. Além das 38 facadas em minha filha, ele dilacerou a nossa família. Hoje, o fruto de tanta luta é a paz no meu coração”, declarou ela ao CORREIO, em frente ao Fórum Ruy Barbosa, no Campo da Pólvora, na manhã desta terça-feira (14).
Gal, como se apresentou à reportagem, é mãe da estudante de Psicologia Milene Bittencourt, que foi assassinada no dia 15 de setembro de 2007, quando tinha 26 anos. Ela foi morta pelo namorado Jardel da Pureza de Souza, 37, que foi preso pelo crime apenas nessa segunda-feira (13), em Ipitanga, bairro de Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador (RMS).
Ele é autor confesso das 38 facadas que levaram à morte da filha de Gal, que se diz aliviada por ver que a Justiça foi feita. “Foram anos de agonia, de aflição, mas agora estou mais tranquila, aliviada”, disse.
O crime aconteceu na tarde de um sábado, na residência da vítima, na Avenida Paralela. Conforme os autos, Jardel matou a namorada a facadas, colocou seu corpo no porta-malas de um veículo que deixou no estacionamento do terminal do sistema ferry-boat.
Jardel foi condenado a 14 anos e seis meses de prisão (Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)
À época do assassinato, Jardel era estudante de Direito. Foi preso em flagrante, passou um ano e três meses custodiado e foi beneficiado por habeas corpus. Ele voltou a ser preso nessa segunda por equipes da Polícia Interestadual (Polinter), que cumpriram o mandado de prisão decretado no dia 5 de março do ano passado, pelo 2º Juízo da 1ª vara do Tribunal do Júri de Salvador. 
“A defesa dele usou todos os recursos possíveis, esgotou todas as possibilidades, foi ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ), mas agora não tem mais para onde correr. Ele terá de cumprir a pena pela morte de minha filha. Não foi fácil para mim. Foram 12 anos. Agora estou em paz”, declarou Gal.
Segundo Osvaldo Manoel, advogado da família de Milene e assistente de acusação do caso, Jardel levava uma vida normal, mesmo quando estava foragido. “O que sabemos é que ele frequentava bares. Ele tem dois carros, ambos de vidros escuros, e quem dirigia era a mulher. Antes de ser preso em Ipitanga, a polícia o procurou em vários lugares, como Aracaju (SE) e até no Uruguai, onde os pais dele moraram”.
O advogado explicou ainda que, como a defesa do criminoso já recorreu a todas as instâncias, agora ele terá de cumprir a pena. Condenado a 14 anos e seis meses de reclusão, como já cumpriu um ano e três meses, ele vai pegar 12 anos e três meses de prisão. Após o cumprimento de 2/5 da pena, Jardel terá o direito à progressão para o regime semiaberto. 
Milene tinha 26 anos quando foi assassinada (Foto: Reprodução)
Histórico de agressão
Gal disse que o namoro de Milene e Jardel sempre foi marcado por brigas. Exatamente seis meses antes da morte da estudante, no dia 15 de março de 2007, ela conta que a filha foi espancada pelo namorado.
“Ela passou dias internada no Hospital São Rafael. Ficou de um jeito que pensei que ficaria cega. Quando teve alta, fomos à Deam (Delegacia de Proteção à Mulher), onde prestamos queixa. Mas, no dia 15 de setembro, seis meses depois, ele tirou a vida dela”, lembrou. 
Gal disse que as datas 15 de março e 15 de setembro são “recordações que não queria ter, mas infelizmente é impossível”. “As datas marcam. Não quis ver as fotos do corpo de minha filha no processo, mas um trecho dos relatos dos peritos ficou na minha memória. Dizia que ‘a vítima sofreu intensa crueldade e, na tentativa desesperada de se defender, teve as mãos perfuradas’. Lembro bem disso", narrou.
A dona de casa desabafou também sobre a defesa do assassino da filha. "Os advogados dele ainda disseram que ele agiu em legítima defesa. Ele matou minha filha com requintes de crueldade, com toda frieza do mundo”, desabafou a dona de casa. 
Sequelas
A morte de Milene deixou traumas irreversíveis à família dela. Hoje, a mãe da estudante e o irmão sofrem de depressão.
"Tomo vários remédios. Me emociono toda vez que lembro o que ele fez com ela e as consequências além da morte de minha filha. O irmão dela, que tinha 15 anos na época, hoje, aos 27, ainda sofre também de depressão, como eu. Eles eram muito ligados. Era ele que abria o portão todos os dias quando ela voltava da faculdade”, relatou Gal. 
Ainda em frente ao fórum, a dona de casa lembrou do momento em que recebeu a ligação da polícia sobre a morte de Milene, que até então era considerada desaparecida.
“Estava em casa quando a polícia me disse: ‘achamos o corpo’. Na hora, não associei, porque nunca imaginaria um fim desse para ela. Mas aí o policial percebeu o meu silêncio e disse: ‘Achamos o corpo de Milene’. Nessa hora meu mundo acabou. Os policiais tinham prendido ele (Jardel). Meu filho, que estava malhando no andar de cima de casa, quando soube, quebrou uma garrafa na parede e disse: ‘desgraçado’. Desde então, meu filho nunca mais foi o mesmo”, disse emocionada.
Apesar de tanta dor, a mãe guarda lembranças bonitas da filha. Segundo Gal, não tem um único dia que ela não se recorde do sorriso da estudante. “Era uma menina que adora a vida e, por isso, vivia sorrindo. Ela era a felicidade em pessoa. Transmitia paz. E ele a tirou da gente, mas agora ele vai pagar pelo o que fez”. 
(correio)

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