Mianmar anistia e liberta jornalistas da Reuters

Os jornalistas birmaneses da Reuters Wa Lone (E) e Kyaw Soe Oo deixam a prisão de Insein, em Yangon, em 7 de maio de 2019 - AFP
Dois jornalistas da Reuters condenados a sete anos de prisão em Miamnar após uma investigação sobre um massacre de muçulmanos rohingyas foram libertados nesta terça-feira após uma campanha mundial.
Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram cercados por jornalistas quando deixaram a prisão de Yangon em que passaram mais de 500 dias detidos.
“Sou jornalista e vou continuar com meu trabalho”, declarou Wa Lone, 33 anos. “Obrigado a todos os que me ajudaram e apoiaram, aqui e no exterior, durante estes dias em que ficamos na prisão”, completou.
“Estamos extremamente contentes de que Mianmar tenha libertado nossos valentes repórteres”, afirmou a Reuters em um comunicado.
“Desde sua detenção, há 511 dias, se tornaram símbolos da importância da liberdade de imprensa em todo o mundo. Celebramos seu retorno”.
A ONU celebrou a libertação, que aconteceu no âmbito de um indultou, e a considerou um “passo para uma liberdade de imprensa maior e uma demonstração do compromisso do governo em favor da transição democrática em Mianmar”.
A organização Anistia Internacional considerou a libertação uma “importante vitória para a liberdade de imprensa”. A Human Rights Watch destacou que a “crise não acabou”.
Durante o ano e meio que permaneceram detidos, os dois repórteres perderam importantes acontecimentos familiares, como o nascimento da filha de Wa Lone.
“Estamos muito felizes”, afirmou Chit Su Win, esposa de Kyaw Soe Oo, 29 anos, à AFP.
A Suprema Corte havia rejeitado há algumas semanas o recurso dos jornalistas da Reuters. A condenação da dupla gerou uma onda de indignação internacional.
A investigação dos profissionais da Reuters venceu o prêmio Pulitzer, um dos principais do jornalismo. Eles também foram reconhecidos pela Unesco e designados, ao lado de vários companheiros de profissão, personalidades do ano de 2018 pela revista Time.
Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram condenados por infração à lei sobre segredos de Estado, que data da época colonial.
O caso virou um exemplo da guerra contra a liberdade de imprensa e motivou uma campanha internacional que atraiu a atenção da advogada especializada em direitos humanos Amal Clooney, que nesta terça-feira declarou ter sido uma “honra representar” seus clientes.
Os dois eram acusados de acessar documentos secretos relativos às operações das forças birmanesas de segurança no estado de Rakhine, no noroeste de Mianmar, palco de abusos contra a minoria muçulmana rohingya.
No momento de sua prisão, em dezembro de 2017, investigavam um massacre de rohingyas em Inn Din, uma localidade do norte do estado de Rakhine.
Desde então, o exército reconheceu que ocorreram excessos e sete militares foram condenados a 10 anos de prisão
Os dois jornalistas sempre alegaram que foram enganados.
Um dos policiais que depôs sobre o caso disse que a entrega dos documentos secretos foi uma “armadilha” para impedir que os jornalistas prosseguissem com seu trabalho.
Vários ativistas dos direitos humanos pediram à vencedora do Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, líder de fato do governo birmanês, que utilizasse sua influência para que os jornalistas recebessem um indulto presidencial.
Mas até o momento ela se negou a intervir, alegando a independência da justiça.
Suu Kyi, muito criticada por seu silêncio sobre o drama dos rohingyas, chegou a justificar a prisão dos dois, “não porque são jornalistas, e sim porque infringiram a lei”. (istoé)

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.